A solidão é a capital do silêncio e o país no qual habitam todas as ausências. É uma cidade povoada por ruas que não se cruzam, por esquinas que não se encontram, por nuvens que sempre chovem, por humanos que não se entendem, por perdidos que não se acham, e sempre que nos deixamos hipnotizar por seus mutismos definitivos e as suas respostas sem perguntas, escorregamos nas entrelinhas da nossa angustia existencial, porque nos transformamos num mero cenário sobre o qual o medo de ter medo de estar sozinhos pesa mais do que o desejo de estar acompanhados; e o silêncio que nos impede vocalizar o que pensamos e sentimos fala mais alto do que a necessidade de esgrimir sonoramente o direito ao uso da palavra; e o temor reverencial que o calar nos impõe é mais forte que a vontade de gritar de alegria e tremer de emoção com que sonhamos.
(c) Bruno Kampel
Aproveitei a manhã órfã de projetos e árida de obrigações a cumprir, e vencendo a todos os meus medos e fantasmas, finalmente dei o passo tantas vezes adiado e fui passear pela Avenida Atlântica, onde o sol deu-me as boas-vindas com um afago morno e doce que fazia muito tempo não sentia sobre a minha pele já acostumada ao nublado céu escandinavo.
A viagem foi bem curtinha. Na verdade, bastou um fechar de olhos e ali estava eu, outra vez “galopando” o calçadão a caminho do Leme, e à medida que avançava ia desintoxicando-me da angústia existencial que sem direitos adquiridos nem licença de funcionamento insistia em abrir as suas portas nessa manhã feita para não pensar em nada mais que não fosse não pensar em nada mais.
Creio que foi quando chegava à esquina da Princesa Isabel pisando com cuidado para não machucar à sombra de mim mesmo que me olhava tristonha desde as pedras portuguesas dessa rua que já fora tão minha, quando finalmente consegui desembaraçar-me desse mal-estar vitalício que há séculos insiste em ocupar militarmente os meus dias e as minhas noites. Desse ponto em diante a caminhada foi agradável e descontraída, enchendo os meus pulmões de rosados sonhos-de-valsa e picolés de chocolate a cada passo que dava, fazendo-me esquecer os motivos que geraram e gestaram essa angústia mal parida.
Desacostumado, e por isso enjoado de tanto sol, nem bem cheguei ao fim do Leme decidi que já era tempo de voltar, e foi o que fiz sem pensar duas vezes. Fechei com sete chaves os portões da fantasia, e abrindo os olhos retornei ao inverno sueco do qual sou inquilino honoris causa, e sem perda de tempo sentei frente ao computador para registrar na minha memória eletrônica o fato de que finalmente cheguei à triste conclusão de que a lição tantas vezes aprendida não oferece nenhuma garantia, pois mesmo que conheçamos as atitudes e os argumentos que devemos esgrimir para proteger-nos das adversidades, não sempre os empregaremos quando sejam necessários, já que a nossa malsã necessidade de sofrer iguala em fundamento e urgência o nosso imperativo desejo de derrotar a esse mesmo sofrimento.
Satisfeito com o bronzeado que a minha aventura metafísica imprimira na epiderme das minhas lembranças, desliguei o aparelho cibernético com uma sensação de déjà vu e ao mesmo tempo de dever cumprido, e fui visitar o jardim da minha casa, onde a neve fazia muitas horas que me esperava sentada sobre a grama congelada e destingida que – por baixo do manto branco que a cobria - pacientemente contava os dias que faltavam para a chegada do tão esperado degelo primaveral.
Comecei a assoviar o samba preferido da neve, e esta, com um olhar entre insinuante e pidão, convidou-me a dançar ao ritmo de um par de lágrimas virtuais, e eu, herdeiro universal do meu passado, aceitei o convite, e enlaçando pela cintura ao desconsolo, e apoiando a minha face nos mil rostos de outros tempos, dancei uma solidão interminável.
© Bruno Kampel
(regra de três que prova que uma cicatriz é uma cicatriz e nada mais do que uma cicatriz)
Não saber é saber o sabor do dissabor. Como a ignorância do sábio ou a loucura do sóbrio ou a sensatez do ébrio.
Fomos macacos e o esquecemos, e agora transformamos pretéritos sons guturais em modernos discursos acadêmicos e não entendemos a mensagem, porque continuamos sendo símios de paletó e gravata.
Por isso a vida ladra e morde. Por isso a morte ganha e manda. Por isso as guerras vão e vêm. Por isso o contra-senso é o capataz de todas as vitórias. Por isso há dinossauros na Casa Branca. Por isso a mentira é a madrasta de todas as verdades e a sem-vergonhice a filha de todos os governos e a infâmia é santificada em todas as igrejas sinagogas e mesquitas.
O futuro?… Bom, quaquaquá… melhor mudar de assunto.
© Bruno Kampel
Ancorado bem no fundo da garganta, um monte de gritos não gritados. Na ponta da língua um batalhão de palavrões impronunciados. Na memória um sem-fim de acertos de contas natimortos.
Na verdade, tudo começou quando tentou sonorizar um alarido, mas o grito não se fez estrondo.
E tudo continuou quando ordenou aos palavrões abandonar a toca, mas descobriu que os palavrões não aceitam ordens.
E tudo terminou quando exigiu à memória que despachasse as contas para quem corresponda recebê-las, mas a memória não levou em conta o seu pedido e o arquivou entre as contas incobráveis.
Humilhado pela derrota nessa luta inglória contra si mesmo, e agindo como se fosse gente, e gritando um silêncio de dar medo, e insultando com olhares e cobrando com discursos que jamais serão ouvidos, assumiu finalmente o comando total e derradeiro do seu fracasso imperdoável, apertando o gatilho por primeira e última vez.
A data do seu sepultamento não será comunicada para não alterar os hábitos dos seus credores e devedores. Ou sim, se essa tiver sido a sua última vontade.
© Bruno Kampel
Semeada com retalhos de horizonte, a estrada convida-me a colher as suas curvas em flor, e no epicentro do vento em contra a felicidade brinca de esconde-esconde nas entrelinhas de todas as promessas.
Estacionada na janela sem paisagem do tintim por tintim, a realidade tatua um epitáfio sobre a epiderme de um curtido desencontro, e em silêncio agoniza sob os restos sem viço de um ramalhete de respostas sem ouvintes.
Uma perplexidade curta e grossa pendura-se na bainha de um intransigente mau agouro, e doidivanas sobrevoa a cordilheira vertebral das íngremes ausências, enquanto as hipóteses se rendem sem luta e feitas verbo ejaculam o seu último suspiro.
Prudente, reduzo a velocidade e estaciono entre os lençóis da minha cama, justo a tempo de poder testemunhar o instante em que o despertador se espreguiça e sem delongas assina o atestado de óbito de outra noite mal dormida.
© Bruno Kampel
Relampagueiam idéias iluminando a imaculada solidão da página em branco.
Retumbam no zênite da memória trovões cheirando a inspiração mal dormida, impedindo o planejado desembarque de um exército de antônimos e sinônimos armados até os dentes com afiadas frases de destruição em massa.
Um tsunami de palavras que hiberna no fundo do copo de uísque acorda e tenta inundar com metáforas inteligentes as entrelinhas do tempo que não passa nem que a vaca tussa, até que a imaginação finalmente reconhece a sua derrota e foge espavorida da cena do crime, deixando como prova incriminatória um par de impressões digitais talhadas na pele de um texto fugaz que o papel conseguiu capturar enquanto o céu furioso ejaculava relâmpagos que pariam trovões que discursavam gota a gota receitas infalíveis em prosa e verso.
Terminada a apuração da noite em claro, o resultado final do escrutínio foi de 151 palavras em 6 horas.
Sim, já sei… Parece pouquíssimo, não é?… Pois não é. Umas vezes sessenta páginas é muito pouco e sessenta letras todo um poema. Noutras, nada é muito e tudo é nada mais que um puro blábláblá. Escrever não é fácil.
© Bruno Kampel

Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.
Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.
Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.
Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.
Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.
E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.
Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.
Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.
Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.
E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.
E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
* * *
© Bruno Kampel
Se vieres…
…esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço sobre-humano
uma estrada e seu atalho
uma valsa e seu compasso
uma dança
na esperança de que a noite
cheire a vinho e tenha gosto
e que o encontro seja um pacto
e tenha essência.
Se quiseres…
…esta noite teremos
nossa pele dedilhando suores
nossas mãos visitando os calores
nossas bocas cheirando sabores
nossa urgência implorando favores
nossa cama hospedando os clamores
nossos ais declamando os ardores
nosso amor desenhando os louvores.
Se deixares…
…esta noite veremos
os silêncios cantando sem palavras
os poemas tremendo de alegria
as estrelas gemendo sem vergonha
a emoção delirando docemente
a canção galopando sem arreios
a ternura gerando gestos quentes
eloqüentes
dementes
frementes
urgentes.
Se pedires…
…esta noite será então
um planeta sem fronteiras
a pergunta e a resposta
um delírio sem limites
dois amantes e seus jogos
o desejo realizado
um encontro
de mutantes sem idade
procurando sem receio
prometendo sem descanso
conjugando grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua e sua esquina
uma noite ensolarada
o deserto e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.
Esta noite então…
se vieres e quiseres…
se deixares e pedires…
* * *
© Bruno Kampel
Fui até a livraria para comprar um buquê de versos. O florista que me atendeu disse-me que estavam em falta. Mas não desisti. Fui até a loja que vende flores e pedi um livro de poesias cheirando a jasmins. O livreiro desculpou-se dizendo que estava esgotado.
Teimoso como sou entrei no circo querendo comprar a tristeza do palhaço, mas só tinham para vender a caricatura do seu sorriso. Diante disso, fui até a maternidade tentando achar um pouco de ternura, mas a enfermeira garantiu-me que isso só se encontra nos poemas de amor. Então, ante o dilema de parar ou seguir, decidi continuar à procura do presente, pois queria mandar algo que significasse mais do que apenas um mimo.
Sim, revirei meia cidade buscando alguns gritos de felicidade, mas só achei gemidos de segunda mão. Tentei encontrar suspiros de prazer, porém o lojista só dispunha de silêncios que não paravam de gritar. Revirei as estantes à cata de um vinho feito de suor gerado no desejo e de lágrimas paridas na emoção do encontro, mas apenas achei garrafas vazias e cansadas de esperar por quem as encha.
E foi assim que de prateleira em prateleira, de loja em loja, de bairro em bairro, esgotei o estoque de possibilidades, pois na cidade apenas sobraram sem mácula as esquinas da vida, as praças da esperança, as árvores impávidas e os ninhos sem cadeado onde habitam os pássaros sem tristeza.
Por tudo isso é que só me restou uma alternativa, e a uso antes que seja tarde demais. Espero então que aproveite a esquina que lhe mando para nela aguardar até que o sinal da felicidade fique verde de alegria; a praça, para que desde um dos seus bancos, e olhando o céu, possa desfolhar a alegoria do amanhecer recitando borboletas de todas as cores; as árvores, para que à sombra dos seus galhos floresça a inspiração sempre que ela visite os seus domínios; os ninhos, para dar guarida ao gorjeio sentimental que sua sensibilidade borde em prosa e verso sobre a toalha de renda da vida; e os pássaros felizes, para que sobrevoem as paisagens que a sua imaginação lhes implante nas retinas.
Como já disse, isto foi o único que achei para mandar. Sei que é muito pouco, pouco até demais, não mais do que uma amostra de esperança, mas como tratei de explicar, foi o único que achei para mandar.
© Bruno Kampel
Faz um par de dias - enquanto um delicioso brioche implorava que o usasse para quebrar o jejum - cheguei à conclusão de que o silêncio é o principal patrocinador da Poesia, já que é o cenário sobre o qual a imaginação ensaia seus projetos, e também a alma mater da criatividade e o discurso melódico das idéias; o abecedário multilíngüe onde se gestam as metáforas e germinam as hipóteses, e o acolhedor hábitat no qual se cristaliza a metamorfose que transforma olhares em palavras, emoção em estrofes, verbo em versos.
Teria gostado muito de poder dedicar mais tempo a esses devaneios matinais, mas como sempre que começo a divagar, o telefone tilintou e o meu agente de investimentos, em apenas quatro palavras - compra/venda/lucro/prejuízo - conseguiu que eu fizesse o que não queria: abandonar o arco-íris e retornar à realidade em preto-e-branco.
Respondi-lhe automaticamente, pedindo que compre e que venda, sabendo muito bem que como de costume perderia aqui e ganharia acolá, riria um pouco e choraria mais, já que nunca foi fácil compaginar as taxas de juros com o perfil do desejo, nem o índice do desemprego com palavras que afagam, ou o ponto crítico do qual nos ilustra a Física com o ponto G que nos ensina a sexualidade, nem o suar copiosamente por causa da emoção com o suar a litros devido à inflação.
Enfim… Não tive mais remédio do que continuar aceitando as regras do jogo. C’est la vie, comentei com a chave enquanto fechava a porta, e lá fui eu trabalhar.
© Bruno Kampel
No dia em que descobri que a experiência tinha deixado suas impressões digitais sobre a minha capacidade de ver e entender a realidade, me convidei para uma conversa a dois na qual falaríamos de tudo e de todos.
O cenário escolhido era uma noite invernal ao meio dia (paradoxo escandinavo), na qual a neve recusava derreter-se e o frio inundava com lufadas de medo esse palco cheio de anos e de contas pendentes que desde uma esquina da Suécia numa esquina da minha vida exigiam um projeto de futuro que não fosse um simples deixar que os anos se evaporem sem sequer tê-los tocado, sem apenas feri-los, sem simplesmente gastá-los.
Olhando então para trás vi que desde lá me fitavam de soslaio pedaços de mim de todas as cores com todas as suas verdades e mentiras, com todas as suas respostas e fracassos, e então, num gesto filho da experiência os recolhi e os depositei na conta corrente da minha vida, enquanto decidia de uma vez e para sempre atapetar o caminho dos anos que me esperam na virada dos dias, com perguntas que me apontem o caminho, com ações que demonstrem que respiro, com desejos que alimentem o sentido da minha vida.
Não sei se foram horas. Não sei o que foram. Nem sei se foram, mas sei que o que tenha sido ficou resumido em poucas palavras que a partir de então alimentam a minha fortaleza interior e o meu equilíbrio emocional enquanto deslizo suavemente pelo escorrega da terceira idade.
1.- Se tenho que escolher entre calar ou gritar, grito, porque calar é renunciar.
2.- Quando devo optar entre o papo ameno e o debate aceso, escolho o segundo, porque renunciar ao confronto de idéias é escolher o silêncio, e ele é um péssimo conselheiro para os que já passaram a barreira dos cinqüenta.
3.- No caso de ter que mentir para que me aceitem, pois então que não me aceitem, porque fingir depois dos cinqüenta é um pecado quase mortal. É preferível que não me queiram como sou do que ter que inventar a quem não sou para que me queiram.
4.- Se mesmo sabendo tenho que dizer que não sei para que quem não sabe pense que sabe mais do que eu, ou dizer o que sei ainda que os ouvintes pensem que não sei o que estou dizendo, escolho o segundo, porque prefiro que me odeiem pelo que sei a que me amem pela minha ignorância.
5.- Se os que me escutam ou lêem não sabem separar o debate do convívio, a briga do consenso, e transformam adversários circunstanciais em inimigos definitivos, não tenho mais remédio do que continuar sendo como sou, porque se deixasse de sê-lo trairia a todos os anos que somados me trouxeram até o Presente.
6.- Noutras palavras, desse papo entre mim e eu nasceu a pessoa que sou hoje. Adulto, mas jovem. Quase idoso, porém adolescente. Lutador, mas cavalheiro.
São essas as armas que uso para lutar contra o pior inimigo dos que passamos dos cinqüenta: a velhice. Sim, porque a paz depois dos cinqüenta, essa que se nutre de beijos e abraços, de salamaleques e carícias, de amigos e muito amigos, sem conflitos nem debates nem brigas nem gritos nem um pouquinho de sal nas feridas, é a pura e terrífica velhice. É a paz dos cemitérios, tão cantada em prosa e verso.
É por tudo isso e muito mais que sempre que posso atuo como o jovem que me habita, porque a idade afeta o corpo e não à criança que também somos, e deixar que os anos amordacem a esse infante rebelde, é cair prisioneiro da velhice.
Tenho certeza que morrerei jovem, ainda que o corpo seja muito mas muito velho.
Tomara vocês também
© Bruno Kampel
Pode parecer paradoxal, mas o fato de ser daltônico, ou seja, a minha total incapacidade de identificar a presença de algumas cores, animou-me a empreender a tarefa de pintar um quadro.
Assumida a responsabilidade que tal empreitada exigia, dei licença à criança irreverente que vive num cantinho da minha memória para que escolhesse o pincel e a aquarela, e nem bem os apresentei à tela virgem que curiosa aguardava sobre o cavalete, os três incitaram-me numa só voz e com olhares implorantes a “cometer” a minha primeira obra prima.
A puríssima brancura da tela transformou-se num simples fechar de olhos no cenário sobre o qual tentaria que as cores confessassem as suas mais íntimas verdades, e com o pincel bem guardado no bolso decidi começar a desenhar na minha imaginação uma cena que merecesse a pena ser contada com a ajuda de todas as cores do alfabeto e com a colaboração de todas as letras do arco-íris.
Aproximei-me à “cena do crime” e imediatamente assaltou-me uma lembrança do passado em preto e branco que exigia um papel na obra que estava a ponto de ser gerada, mas antes que eu pudesse responder-lhe ressoou uma voz saída do tubo de tinta branca insinuando a sua mais firme oposição à simples possibilidade de que o cinza lhe fizesse sombra ou que o preto invadisse os seus domínios.
Antes mesmo de encontrar uma resposta a tal desafio, constatei que da ponta do pincel jorravam palavras e mais palavras sobre a esponja sedenta da minha imaginação, a qual imediatamente as transformou num belíssimo espelho em prosa e verso.
Apaguei a luz para poder ler o discurso que o espelho recitava, mas tão somente pude ver refletida em seus cristais uma tela imaculadamente branca e virgem esperando ser estuprada por um pincel abusado e indecente.
Aturdido pelo absurdo do momento zanguei-me com todas as cores, e imaginando o resultado da mistura do vermelho com o perdão e do azul com a esperança e do preto com o silêncio e do verde com o cansaço, finalmente terminei de pintar o quadro que jamais será pintado.
Antes de retornar a cumprir a minha perpétua condena de germinar contos e cinzelar poemas, aproximei-me da tela branca, e olhando-a com verdadeiro amor paterno assinei o meu nome no canto inferior direito para que se saiba quem foi o artista que conseguiu dizer tanto sem dizer nada. Confesso que me sinto bastante orgulhoso da minha obra, à qual batizei com o nome de Arco Íris em Sol maior para cegos, poetas e charlatães.
© Bruno Kampel

Se soubesses
que enquanto escrevo
te afago
e enquanto afago
te beijo
e como te agarro
enquanto penso
que te tenho!…
Se soubesses
o quanto e tanto
tenho te sonhado
e em sonhos
possuído até o delírio
dirias que sim
que queres mais
e gritando exigirias
até o meu último suspiro
e eu então
matar-te-ia de prazer
e morreria de paixão
entre os nossos ais
teus quero mais
teus outra vez
e bem dentro de você
entre músculos tensos
e suores densos
fincaria raízes
para todo o sempre.
* * *
© Bruno Kampel
Pesando e medindo atos e fatos da vida, e comparando alguns projetos com seus resultados, é fácil concluir que geralmente os desafinados somos nós e não a vida ou os projetos ou seus resultados; apenas nós, os poucos que obstinadamente insistimos em pedir peras à macieira; os raros que teimosamente não renunciamos a procurar formigueiros no asfalto; os extravagantes que preferimos ser surdos num discurso e mudos num concerto, porque o que realmente procuramos são as pequenas perguntas que desafiam, e não as grandiloqüentes respostas que satisfazem.
Somos o que se convencionou definir como verdadeiras e abomináveis ovelhas negras, sem pôr nem tirar, e não temos problemas de confessar sem rubor que isso honra-nos muito, pois por temperamento preferimos cultivar idéias no jardim dos fundos da nossa existência a ter que invejar as roseiras que nos olham desde o jardim do nosso vizinho; optamos sempre por plantar uma árvore na esquina da nossa própria verdade antes que podar as galhos que dão sombra à estrada pela qual transita a verdade de nossos adversários; escolhemos sempre cuidar a grama que cresce entre as estrofes do nosso ideário ou nas entrelinhas dos nossos fracassos, a ter que apará-la para satisfazer o gosto alheio; e principalmente, escolhemos lavar e passar as nossas velhas e surradas utopias - essas que jazem no fundo da gaveta das boas intenções - a ter que abaixar os braços e aceitar as ordens peremptórias e quase sempre sem sentido dessa déspota chamada Realidade; e sabe-se lá mais o quê, ou vai ver que sim sabe-se lá muito bem o quê, mas o que verdadeiramente importa é que tratemos todos de ser mais felizes do que merecemos e muito menos infelizes do que mereçamos, e nada mais.
É portanto imperativo desejar que o tempo nos ensine a sintonizar com maior precisão a freqüência na qual se transmitem os interesses do próximo, e quem sabe, como prêmio, esse mesmo tempo faça que o próximo fique um pouquinho mais tolerante toda vez que esbarrar numa idéia desagradável que proponhamos, num pensamento antagônico que manifestemos, ou numa ideologia diferente que defendamos, já que todos estamos à procura de pontes e não de precipícios; de temas que obriguem a pensar e não de distrações que convidem a esquecer; de batalhas dialéticas que forjem nosso caráter, e não de simples vitórias que o deformem.
Em razão do acima exposto, propomos:
1.- Que o cinza chumbo seja definitivamente expulso do arco-íris, e que o desejo de vingança peça concordata, e que o abuso de direito seja encarcerado sem fiança.
2.- Que se degrade o Ódio à categoria de Antagonismo, perdendo assim os benefícios que o grau anterior lhe concedia, como seja matar sem pedir licença ou pintar com sangue as palavras ou vestir de luto os discursos.
3.- Que os dedos não mais sejam usados para apertar gatilhos, nem as mãos para cravar punhais, nem os olhos para brilhar de raiva, nem a boca para cuspir mentiras, nem o verbo para semear discórdia, nem o ouro para comprar consciências.
4.- Que se proíba terminantemente morrer pela Pátria e se convide em todos os canais y em todas as revistas e jornais a fazer exatamente o contrário: viver por ela.
5.- Que o discorrer das horas, dos dias e semanas, dos meses e dos anos, gere instantes de prazer, minutos de alegria, horas desfrutáveis, dias frutíferos, semanas produtivas, meses gratificantes, anos plenos de esperança.
6.- Que se suspenda definitivamente o patrocínio comercial de todas as guerras por mais ou menos santas que forem, e que se puna severamente a publicidade dos fabricantes da ignomínia.
7.- Que se permita o retorno da Inocência Perdida desde o injusto desterro ao qual fora condenada sem processo, e seja convidada a ocupar o lugar de honra que ela merece.
8.- Que nunca mais floresçam mortos anônimos nos jardins das ditaduras, e que jamais a desvergonha dos artífices do apocalipse volte a semear com vítimas inocentes o registro sensitivo dos povos.
9.- Que as bombas inteligentes sejam aposentadas e um manto real de teias de aranha lhes sirva de mortalha nos escuros porões dos museus, e que os líderes bem menos inteligentes do que as bombas que fabricaram os arquitetos da morte murchem no viveiro do tempo sem pena nem glória, e que seus nomes desapareçam para sempre das páginas da História que eles ajudaram a manchar com sangue inocente e lágrimas de dor.
10.- Que os punhos fechados se abram em mãos estendidas ao próximo, e que a paz rompa os grilhões, e que a verdade tenha finalmente o direito de ser a dona e senhora da última palavra.
© Bruno Kampel
Não é lá muito difícil “adivinhar” o futuro imediato. A diferença mais marcante em relação ao presente será que o computador finalmente deixará de ser um apéndice secundário ainda que necessário do ser humano, pois o Pitecantropus mais ou menos Erectus que nos habita; sim, o tal do homo cada vez menos sapiens em tudo aquilo que se refere ao lado intelectual e emocional da sua própria pessoa, terá renunciado sem resistência a esse papel secundário de amo e senhor de si mesmo que protagoniza atualmente, e passará a ocupar o lugar que o progresso lhe conferirá.
Nesse novo cenário que o futuro já está construindo enquanto digitalizamos nossas emoções e imprimimos nosos vazios e prazeres, deixará para sempre de usar o computador como um mero instrumento auxiliar de conhecimento, transformando-se numa simples extensão do mesmo, e o PC, em agradecimento pela rendição sem luta do ser de carne e osso, eliminará com um simples Delete/Apagar todas as preocupações, todas as perguntas sem resposta, todos os poréns da vida do seu novo dependente, e este, num simples abrir e fechar de programa aprenderá o que deve dizer, quando deve fazê-lo, quem é que manda, por quê deve obedecer, e claro, não poderia faltar, quando deve memorizar o livro, o conto, o poema, o discurso ou a consigna virtual que o instrutor cibernético lhe indicará.
Depois de efetuar o download do livro, do conto, do poema, do discurso ou da consigna virtual, receberá um e-mail codificado com o comentário sobre o significado de dito livro, conto, poema, discurso ou consigna, e um perfil em formato .txt de cada um dos personagens ou pontos importantes, e como corolário uma imagem .gif que resumirá aquilo que deverá lembrar sobre o tema, e finalmente o computador se desconectará do usuário até que o necessite novamente para instruí-lo nas artes da maravilhosa vida cibernética.
Os poucos que nos oponhamos a essa tiranía megabáitica (sim, desde já me inclúo) seremos internados em centros de reeducação financiados com 0,7% dos lucros da Microsoft, e os que apesar disso não possamos adaptar-nos ao novo modus vivendi , seremos enviados a Guantânamo ou à Disneyworld para que lá cumpramos a condena de viver enjaulados dentro de minúsculos arquivos .zip que impedirão todo e qualquer movimento devido à compactação que teremos sofrido, ainda que como sempre ocorreu ao longo da longa História, poderão impedir que nos mexamos, que nos olhemos, que nos falemos, que nos toquemos, que atuemos, que contestemos, que discutamos, que gritemos, que defendamos e que acusemos, mas não há nem haverá programa internáutico nem futuro cibernético nem password indescifrável que impeça aos poucos que por princípio jamais nos ajoelhamos submissos, o pleno exercício do direito de pensar, e os construtores da futura vida eletrônica sabem muito bem sabido que a liberdade de pensamento é um virus letal e indestrutível que mais cedo ou mais tarde encontrará a fórmula mágica que desative para sempre o programa pirata que manipulou e manipula o código genético da humanidade e usurpou e usurpa o comando, transformando seres humanos cheios de maravilhosas falhas de fabricação, em máquinas cuja perfeição é a melhor prova da sua completa inutilidade.
Quando isso acontecer – e que nenhum disco duro por mais gigas que use como armadilhas, ou qualquer chip de destruição massiva que viva à espreita, ou os gênios de laboratório que ultimam os preparativos para transformar mentes em arquivos e livre arbítrio em doença mortal pense que poderá evitá-lo, voltaremos todos a ser felizes para sempre com as nossas dores verdadeiras, com os nossos fracassos reais, com as nossas mentiras fatais, com as nossas verdades parciais, com a nossa insegurança, com a nossa esperança.
Que os fabricantes do homem-máquina não duvidem: Resistiremos até o último quilobaite da nossa individualidade!
© Bruno Kampel

Vou adiantando a você uma novidade: nossas fotos - a que mandou em formato .jpg e a cópia da minha que lhe remeti em formato .gif - dormiram juntas.
Sim, esqueci as duas dentro de um arquivo temporário e hoje amanheceram dentro da pasta Confidencial do PC, e tanto o meu rosto quanto o seu refletiam sinais indiscutíveis de cansaço, e o seu olhar encabulado e o meu envergonhado, eram uma confissão irrefutável. Como provas adicionais estavam os cabelos desarrumados, as roupas amarrotadas como se vestidas às pressas quando ouviram que eu me aproximava da cena do crime.
Ambos fotos estavam completamente fora de foco, contrariando o estado em que as deixara. Olheiras bem profundas e uma sombra de saciedade estampada nas feições dos dois completavam o quadro.
A cena retratava fielmente o “após” tradicional, delatando nos pequenos detalhes que a batalha fora longa e decisiva. Os botões da sua blusa esparramados por todos os cantos de todos os programas; meus sapatos dentro do arquivo das músicas; suas meias embaixo do Outlook Express, e da telinha do monitor emanava um forte aroma de perfume virtual, daqueles que incentivam e ativam todas as vontades.
Ao ver a cena lembrei que durante a noite ouvira barulhos inusuais, os quais, misturados à minha sonolenta imaginação, me ativaram. Sim, sons conhecidos, onomatopéias que sem necessidade de tradução relatavam todos os detalhes do que estava acontecendo.
Lembro de uma voz feminina declamando o que parecia ser um poema envolvido em lágrimas e delícias, enquanto que a voz do homem recitava sussurros suaves, incompreensíveis e excitados.
Bem que senti que algo estava acontecendo, pois naquele estar acordado ainda que dormindo senti-me tenso, mas como estar tenso era uma sensação que me fazia bem, deixei que o nirvana continuasse, fechando ainda mais os olhos e apurando muito mais o ouvido.
Mesmo na escuridão do quarto adivinhava as carícias que se trocavam dentro do monitor. Os beijos sensualmente descompactados, os lábios sofregamente maximizados, os afagos urgentes, o espasmo sincopado, o delírio eloqüente.
Quando acordei pela manhã pensei que a sua foto havia seduzido a minha imaginação, gerando uma vontade de, um querer que, e assim fui tomar o meu banho matinal, e depois o desjejum, e logo buscar o correio de verdade, e finalmente vim ver se tinha chegado alguma carta eletrônica que não fosse mais uma conta a pagar ou um convite a experimentar uma nova versão de Viagra ou a fórmula para aumentar alguns centímetros o tamanho do meu Ego.
Foi então - como lhe disse - que encontrei as fotos no chão do arquivo temporário, desbotadas e fora de foco.
Por tudo isso, mas principalmente para tentar demonstrar a veracidade do fato e a seriedade das minhas intenções, é que faço questão de informá-la que ao ver as fotografias em tal estado - e após recuperar a calma e o equilíbrio emocional, perdidos quando fiz a descoberta - apertei os botões correspondentes, ampliei a sua imagem, editei-a, recompus os detalhes, desamarrotei a sua roupa, penteei os seus cabelos, inseri um par de meias novas, configurei o brilho apropriado para o seu sorriso, apaguei as olheiras e eliminei os hematomas no seu pescoço, e antes de arquivar na pasta apropriada olhei todos os baites e kilobaites do seu corpo - um por um - e não pude deixar de imaginar o atropelo sofrido pela sua jpg, e ao compreender a ousadia brutal da versão Gif de mim mesmo, morri de ódio do meu retrato. De raiva do meu retrato. De inveja do meu retrato.
© Bruno Kampel
Quem se atrever a negar que o desejo e a lascívia pairam vitalícios sobre nós como a fome sobrevoa dia e noite o estômago vazio, e que o fracasso nada mais é do que um pouso de emergência, tampouco saberá que os minutos engatinham ladeira acima enquanto os anos decolam nos seus fantásticos vôos supersônicos, e que embarcar na tese do tempo que flui é como deixar-se arrastar pela esperança que nos veste e que nos despe, que nos faz e nos destrói.
Quem se atrever a negar que a borboleta é uma águia guerreira, e que o pardal é filho das suas próprias circunstâncias, e que o perdão é uma vacina que injeta nas nossas veias o direito de recomeçar de zero, tampouco saberá que viver é nadar contracorrente enquanto se caminha de joelhos com os olhos fechados sem sair do lugar, e que para pensar sem medo de escorregar convém apertar o cinto antes de começar essa viagem para dentro de nós, e que para ganhar ou perder é imperativo arriscar-nos em vôos acrobáticos, ainda que terminemos espatifados na beira de nós mesmos, lá bem no fundo das perguntas sem resposta, sobre os lençóis do leito nupcial do desatino.
Quem se atrever a negar que a vida é um vôo cego sobre a pele de galinha de um instante, tampouco saberá que o tempo é uma enciclopédia que se escreve sem palavras; que o orgasmo é um tremor que começa na bainha da nossa libido e termina num sincopado grito de alegria, e que a felicidade é uma hecatombe inacabada, um terremoto de reflexos carregados de veemência que expelem pelos canais competentes seus humores sagrados enquanto jogam seus jogos candentes com cartas marcadas molhadas de vida.
[O resto, todo o resto – não duvidem - é pura Literatura. Só a Vida vivida é a versão original de si mesma].
© Bruno Kampel
“Faz alguns dias fiquei matutando por que será que temos tanta dificuldade em conviver com as diferenças. E esse matutar pariu não sem dores e com a ajuda de fórceps uma bem nutrida conclusão: à medida que vamos ficando cada vez mais adultos, ou seja, cada vez menos incultos, quer dizer, cada vez mais doutos, o que significa cada vez mais ocos, vamos reprimindo a capacidade infantil de aceitar que tudo é razoavelmente viável e que nada é definitivamente impossível. Finalmente, considerei provado sem sombra de dúvidas que a despeito dos sólidos conceitos científicos que o provam e das bem estruturadas teorias do comportamento que o negam, dois bicudos sim se beijam.
Dessas divagações escandinavas nasceu este texto lourinho de olhos azuis que agora procura uma família que o acolha”.
* * * * *
Do que realmente gostava o Julinho era de brincar no jardim dos fundos de sua casa, e era isso o que ele estava fazendo naquela ensolarada manhã repleta de passarinhos, com o inconfundível aroma de jasmins inundando o bucólico cenário e as obrigatórias borboletas balançando-se nos galhos, quando ao deixar vagar o olhar sem rumo definido flagrou um enorme cacto do jardim do vizinho no exato momento em que pulava sobre a cerca de arame que separava os terrenos e em menos de um abrir e fechar de olhos abraçava-se a um dos trevos que viviam no seu jardim e começavam a beijar-se na boca.
Sem perder tempo foi até o formigueiro que funcionava na outra ponta do jardim para saber se os chefes das formigas - seus amigos Quinta Sinfonia e General da Banda - tinham visto o ocorrido, mas para seu pesar um cartaz avisava que o formigueiro estava fechado por causa das férias e que todas elas tinham viajado num charter da FormigAir até o Parque Municipal, ficando assim com a grande honra de ter sido a única testemunha ocular da história.
Julinho saiu correndo para contar a novidade à sua mãe, mas ela para variar não acreditou, dizendo o mesmo de sempre - que deixasse de sonhar acordado e outras bobagens parecidas. Esperou então impaciente a volta do pai do trabalho - quem como de hábito não chegou sozinho, porque a escuridão da noite sempre o acompanhava - e contou-lhe o acontecido, mas o pai, igualzinho que a mãe, lhe disse que deixasse de ler tantas revistas infantis e livros de Júlio Verne e o Tesouro da Juventude, porque em caso contrário terminaria ou completamente maluco, ou muito pior ainda, poeta ou escritor.
O melhor de toda essa confusão é que Julinho não precisou esperar muito para que a sua grande vingança acontecesse, o que de fato ocorreu numa outra manhã de um outro dia de um outro mês, ainda que no mesmo jardim e com os mesmos passarinhos como testemunhas silenciosas, todos deliciosamente embriagados pelo inconfundível perfume dos jasmins e pela beleza sobrenatural das borboletas - que enquanto dançavam felizes de galho em galho olhavam de soslaio o panorama - quando no mesmo lugar em que antes acontecera o estranho noivado floresceu a verdade em toda a sua plenitude, porque sim, senhoras e senhores… o trevo tinha dado à luz gêmeos, o que significava que tudo aquilo que Julinho tinha afirmado que vira era a mais absoluta verdade e não o produto da fantasia de uma criança candidata ao Pinel, ou pior ainda, a ser poeta ou escritor, como seus pais suspeitavam.
Sim. No gramado do jardim, bem encostada à cerca que separava os dois terrenos e colada à mamãe-trevo que estava iniciando-se na arte de trocar fraldas, encontrava-se a prova definitiva que o absolvia para sempre: um fofíssimo trevo cheio de espinhos e um pequeno e maravilhoso cacto de quatro folhas.
(Por essas e outras é que sempre convém perguntar: o que é realmente a verdade, ein?… Vamos lá… que cada um conte a sua. O último paga a conta).
© Bruno Kampel
Muito curioso, sem dúvida. Freei no sinal vermelho, um desses que demoram pouco a mudar de cor. Em menos de um segundo consegui cartografar o território circundante, que a primeira vista compunha-se de quatro esquinas e dois cachorros levando a seus respectivos donos pela coleira.
Apontando o olhar para a janela do apartamento de um dos prédios que formavam o cruzamento, flagrei o perfil de uma velhinha de cabelo branco limpando os vidros, e num giro rápido da cabeça detectei uma criança parada frente à vitrine da loja de eletro-domésticos, quando olhava gulosamente para um computador conversível último modelo, tão moderno na sua tecnologia quanto inalcançável no seu preço.
Mudando aleatoriamente o destino do meu olhar esbarrei sem querer na árvore à minha esquerda, onde alguns passarinhos brincavam de esconde-esconde, e no pedaço de céu que completava o panorama, um par de nuvens recém nascidas choramingava uma garoa fininha que se acomodava sem pressa sobre o pára-brisa do meu carro.
Bastante bucólica a paisagem. Pena que tudo mudou quando de supetão, e avançando o sinal vermelho, atropelou-me uma vetusta verdade que não sei se saiu da esquina da vida, da curva da experiência ou do fundo da névoa do tempo. Estava escrita com o sangue de muitos, de todas as raças, de todos os credos, e dizia, em letras garrafais: “a violência que é combatida com violência ainda maior, antes de morrer pelo efeito das armas carregadas de vingança, dá à luz, num parto dolorosíssimo, a milhões de germes de violência inimaginável, que rapidamente se instalam no desnutrido código genético dos povos oprimidos ou saqueados ou explorados.”
Foi nesse exato momento - justo quando as idéias começavam a ficar realmente claras - que o sinal abriu. Apertei então o botão mental de Guardar como… sim, o tal do Save as… e acelerei a caminho da verdade nua e crua, onde as manchetes dos jornais me esperavam sentadas nas primeiras páginas da realidade.
© Bruno Kampel